Olhar Econômico

11 dezembro, 2005

Os novos latinos


Países da região aproveitam a liquidez global para arrumar a casa e fortalecer a poupança doméstica. Veja esta matéria interessante que saiu na Revista América Economia.
Acostumados a entrar e sair dos radares do mercado financeiro global a cada crise e recuperação da liquidez global, parece que desta vez os mercados latino-americanos chegaram para ficar. Graças a uma conjunção da maior taxa de poupança doméstica em 15 anos, da redução da vulnerabilidade externa da região e de outras reformas estruturais feitas em grande parte dos países, a América Latina agora está mais saudável e poderá enfrentar com menos traumas qualquer virada no cenário internacional. Este é o pano de fundo sobre o qual se tem produzido um explosivo desenvolvimento da indústria financeira na América Latina, refletido nos rankings de maiores bancos, seguradoras e administradoras de fundos de pensão apresentados nas próximas páginas.A opinião é preponderante entre economistas e investidores: finalmente a América Latina aproveitou um período de forte crescimento global e de excepcional liquidez nos mercados mundiais para economizar, em vez de endividar-se ainda mais e deixar o problema para os sucessores no comando dos países, como era regra. “Estamos surfando nessa onda em boa forma”, resumiu Luiz Fernando Figueiredo, sócio-diretor da Mauá Investimentos e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central do Brasil, em sua palestra no seminário Fundos Hedge na América Latina, organizado pelo banco suíço controlado por brasileiros Banque Safdié, em Genebra, no fim de outubro. “Pode-se dizer com tranqüilidade que a região está mais preparada para uma eventual crise internacional.”O fato é que o espetacular crescimento de grandes economias emergentes como a China e a Índia tem permitido uma conjuntura inédita na economia global. A queda dos preços de produtos manufaturados provocada pela entrada dos chineses em diversos mercados — 98% dos carrinhos de bebê vendidos no mundo são fabricados na China, por exemplo, — e a concorrência da Índia em serviços como informática e telemarketing vem causando uma pressão deflacionária no mundo que compensava completamente o efeito da alta do petróleo e outras commodities nos últimos dois anos.Isso permitiu que os juros permanecessem baixos por um período sem precedentes nos países desenvolvidos, impulsionando o crescimento mundial para níveis recordes, de mais de 5% no ano passado, com previsão de mais de 4% este ano e em 2006. E dirigindo um enorme fluxo de investimentos para mercados emergentes, inclusive a América Latina. O saldo em conta corrente dos mercados emergentes virou de um resultado negativo de US$ 50 bilhões em 1998 para um superávit de US$ 150 bilhões este ano, segundo dados da Mauá Investimentos.Portanto, o desempenho econômico da região — com alta de 5,9% no PIB em 2004, comparado a uma média de 1% de 1998 a 2003 — “reflete a persistência e os efeitos de tendências que começaram a esboçar-se no segundo semestre de 2003”, segundo um relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). “A notável expansão dos países asiáticos, associada à aceleração da atividade econômica nos Estados Unidos, traduziu-se em um aumento da demanda e dos preços dos produtos básicos exportados pela região, principalmente metais, minerais e certos produtos agrícolas”, informa o Estudo Econômico para a América Latina e o Caribe, divulgado pela Cepal em agosto. “Ao maior dinamismo das economias asiáticas e americana somou-se o incremento da atividade no Japão e nos países da União Européia.”Toda essa demanda elevou os preços das commodities exportadas pela região e intensificou o aumento dos termos de troca. “O comércio mundial está crescendo muito e os termos de troca dos bens da América Latina aumentaram 20% desde 2000”, diz Figueiredo, da Mauá Investimentos. “Um aumento de 20% na competitividade é muito e, no caso do Brasil, essa melhoria é de cerca de 35%.” Com isso, o volume exportado pela América Latina e o Caribe cresceu 12,4% em 2004, segundo a Cepal, e as exportações alcançaram 23,4% do PIB regional, o maior volume desde 1990. Ao mesmo tempo, governos e empresas aproveitaram o impulso das exportações sobre as taxas de câmbio da região para se livrar da dívida externa, que em 2002 correspondia a 40% do PIB e no fim de 2005 deve ficar em cerca de 32%. Aproveitando a virada no saldo em conta corrente dos mercados emergentes, os bancos centrais se puseram a comprar reservas. No caso do Brasil, as reservas internacionais aumentaram de 17% da dívida total para 35%. “É outro país”, diz Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio-diretor da Quest Investimentos e ex-ministro das Comunicações do Brasil. “Nos últimos dez anos, o Brasil passou de um fluxo de comércio de 15% do PIB para 25%. E segue rumo aos 40% do PIB nos próximos anos.”